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Ela e ela mesma

Hoje não é um bom dia! Parece que o vazio que insiste em permanecer dentro de mim evoluiu para proporções infinitas. Definitivamente, hoje não é um bom dia. Talvez o dia comece a melhorar se eu conseguir calar este maldito despertador…

Bem melhor assim!

Estou sozinha nesse mundo. Não sozinha, apenas me sinto sozinha! Não consigo vencer os convites que recebo para ter uma “noite legal” que sempre se resume nas mesmas coisas: jantares, baladas, motéis, transas superficiais, um falso sentimento de saciedade e uma cara de ressaca no dia seguinte que me entrega para as outras pessoas, estas que sempre vem com a mesma piadinha de sempre fazendo uso de uma intimidade que não concedi:

– Que cara é essa? Até parece que não transou!

Transei! Foi bom! Rapaz bonito, gente boa… É, foi bom! Mas sem significado. Não me acrescentou em nada. Foi como comer uma coxinha recheada com frango e catupiry quando se está com vontade: você come, mata a vontade e a vida segue da mesma forma que se não tivesse comido.

Tenho me sentido assim há algum tempo. Não sei bem quando foi que comecei a me sentir assim, mas faz algum tempo. Cortei o cabelo, na ilusão de que me tornaria uma pessoa diferente. Não deu certo. Como sempre recebi alguns elogios, mas meu ego já está com lotação máxima. Não é isso que me falta. E se eu comprasse umas roupas novas? Não, acho que não… Tenho muitas roupas ainda com etiquetas no closet. Bom, deixa eu levantar dessa cama que a vida já está gritando por mim.
Minha rotina é sempre a mesma: banho quente, café quente, academia, trânsito infernal, trabalho estressante. Chego de noite em casa sempre há uma carta embaixo da porta. Sempre é uma conta nova. Sempre dou aquela bufada. Isso é a vida dando um jeitinho de me falar pra parar de choradeira que ela não irá pegar leve comigo. Isso quando meu gato não pensa que a conta é um brinquedo e rasga-a toda.

Sim, tenho um gato. De raça. Caro. Ganhei de um rapaz com quem eu estava ficando. Não sei bem a intenção dele em me dar esse bicho. Talvez ele quisesse brincar de casinha, fazendo de conta que éramos uma família. Pensei em dar ele para os outros, mas resolvi ficar um pouco com ele. Peguei amor ao bichano. Ao rapaz? Não, não… Tentei, insisti… Ficamos um bom tempo juntos, mas o “mim” dele conjugava verbo demais. Mas pensando bem, não tenho tido muita sorte com quem eu me envolvo. Lembro-me do rapaz que não bebia. Nada! Como assim? Como alguém consegue viver essa vida na mais pura sobriedade? Havia dias em que eu queria beber, falar besteira, fazer besteira e colocar a culpa na bebida. Mas precisava de um parceiro pra isso. O outro era geração saúde. Chegava minha TPM, queria devorar todos os chocolates do mundo. Ele ficava me encarando, falando de todas as substâncias do chocolate, o quanto eu iria engordar, o quanto eu teria que malhar pra queimar aquela simples caixinha com 24 bombozinhos da Ferrero Rocher. Nem preciso falar quem eu escolhi pra minha vida, né? Por falar nisso, preciso passar no supermercado. Hoje é o meu último comprimido do mês.

Esta semana é o que as pessoas que insistem em achar que são íntimas de mim chamam de “Semana de correr para as colinas”. Por que esses malditos insistem em colocar a culpa da minha insatisfação seletiva na minha TPM? Continuo amando meu gato, amando meus chocolates. Definitivamente, hoje não é um bom dia.
Para as pessoas (sim, aquelas mesmas que acham que são íntimas), nunca é um bom dia para mim. Dizem que sou muito exigente, fechada, imponente. Que o homem pra chegar perto de mim tem que ser muito corajoso. Concordo com elas. Acho que essa é a única coisa que elas falam que eu concordo. Por que é tão difícil entender isso? Por que é tão difícil encontrar um homem corajoso? No entanto, a coragem que busco em um homem é bem diferente da que elas se referem.

Quero um homem que tenha coragem suficiente pra viver. Quero um homem que tenha coragem pra sorrir e chorar sem medo de ser julgado. Quero um homem que tenha coragem de se entregar, de confiar em mim, de entender que quando eu estiver com ele, será só com ele. Quero um homem que tenha coragem de dizer as coisas que preciso ouvir e não dizer apenas o que quero ouvir. Preciso de alguém que tenha coragem de brigar comigo quando eu estiver errada, um homem que tenha coragem de falhar e de tentar acertar quantas vezes for necessário. Quero um homem que tenha coragem de se expressar, de me assumir para o mundo como sendo sua única e desejada mulher. Não estou pedindo para nenhum homem me amar com palavras, mas que tenha coragem de me amar com atitudes. Que me respeite. Que tenha coragem de falar não às tentações que a vida lhe impuser. Que tropece, mas que tenha coragem de pedir desculpas. Quero um homem que não corra para as colinas, mas que tenha coragem de colocar a minha cabeça em seu peito quando eu estiver precisando de um afago. Quero um homem que tenha coragem pra me defender e coragem pra aceitar minha independência. Quero um homem que tenha coragem de me tirar da escuridão e me levar para o melhor lugar que puder. Que permita eu olhar em seus olhos e ver a minha vida definida. Quero um homem que tenha coragem de aceitar os meus defeitos e me fazer melhorar. Mas onde encontrar um homem assim?

Talvez o problema esteja em mim. Talvez eu seja corajosa demais pra ser quem eu sou. Talvez minha coragem afugenta os covardes. No meio de tantas dúvidas, tenho uma certeza: este vazio que cresce em mim somente será preenchido por um homem que tenha coragem em proporções ainda mais grandiosas.

Escrito por Renatto Neves

O mais completo paradoxo perfeito. Sou o protótipo da confusão. Uma mistura sutil de valores que intrigam a todos, inclusive a mim. Dono de opinião e cabeça dura. Ouvido e ombro de várias amigas, o que me rendeu grandes conhecimentos no âmbito feminino, pronto pra ser despejado em caracteres.

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